| Brasil S/A :: Antonio Machado Placar da caçada ao dólar pelo BC e pelo Tesouro é pior que a sorte num estande de tiro de mafuás Sem mira nenhuma
O placar de acerto da caçada ao dólar pela dupla do Banco Central e Tesouro Nacional deve estar pior que tentar a sorte num estande de tiro de mafuás. Outro mês se foi com muita munição desperdiçada e nenhum acerto. Abril passou com o dólar murchando 3,6%, a maior queda em sete meses frente ao real. E vai continuar minguando.
Vem encolhendo desde lá detrás. O presidente Lula assumiu com o dólar cotado a R$ 3,54 — uma taxa distorcida pelo mercado, já que havia os piores augúrios sobre um governo do PT — e passou a faixa para Dilma Rousseff com a moeda americana valendo R$ 1,67. E agora com os porta-vozes oficiais sustentando que esse seria o preço do sucesso da economia brasileira. O ufanismo obnubila o juízo.
De 2001 a 2008, o dólar índex calculado pelo Federal Reserve, que o compara à cesta das principais moedas do comércio dos EUA, caiu 42%, recuperou 25,5% até o seu último pico em 2010, a 88,7 pontos, e voltou a perder 17,5%, estando em 73 pontos. É queda deliberada.
Em 1985, após o Acordo do Plaza, alusão à cúpula em que o Japão aceitou valorizar o iene para reduzir o deficit em conta- corrente dos EUA, o índice estava em seu ponto mais alto, 164,72 pontos. Desde lá, a trajetória do dólar não condiz com o seu status de reserva de valor e meio de pagamento universal. Então: o real sobe pela força da economia brasileira ou pela fraqueza da dos EUA? É uma questão.
Outra é saber a lógica que há por trás da nossa política cambial. As reservas de divisas pularam de US$ 288,5 bilhões no fim de 2010 para US$ 327,3 bilhões. Cresceram 13,4%. No mesmo período, o dólar perdeu 5,6% frente ao real. Foi bom para a inflação, pois barateou as importações, que derrubam o preço interno de bens equivalentes, e conteve o preço dolarizado em reais dos produtos agrícolas.
Deve-se discutir se compensou trocar dólares que pouco rendem às reservas, com a remuneração dos papéis públicos de 10 anos nos EUA pagando 3% ao ano, se no Brasil, para comprá-los, o BC recorre ao Tesouro, que se endivida ao custo da Selic, hoje a 12%.
Essa conta não fecha e fica parecendo com boca de jacaré se o BC, para acomodar o gasto público correndo à frente do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), serve-se do câmbio como sucedâneo de juros maiores. Ou para tentar evitar que subam ainda mais.
Como cirrose hepática “O processo pode perdurar durante anos, a ponto de gerar um sério problema: o da perda de mercados externos e, consequentemente, dos ganhos de produtividade que costumam caracterizar os setores que têm de competir com o exterior (exportador e o de substituição de importações)”, diz Rubens Penha Cysne, professor da FGV/Rio.
É como a doença oportunista que vai minando devagar o organismo. Quando se descobre, não há o que fazer. Explica Penha Cysne: “Se a crise cambial usual assemelha-se a um infarto, a crise que decorre de excessos fiscais em um ambiente de câmbio flexível está mais para uma cirrose hepática. Quando se observa a sua proximidade, o câmbio já se valorizou a ponto de ter condenado os exportadores a severa perda de mercados e a indústria a se contentar com taxas de crescimento bem aquém daquelas que poderia ter materializado”.
A rede das commodities Se tais fatos ocorrem ou não no Brasil, diz, e, se ocorrem, com que intensidade, é questão em aberto. Muitos não têm dúvida de que o processo está em curso, embora turvado pelos ganhos excepcionais das exportações de commodities agrícolas e minérios. É o que ainda mantém o superavit da balança comercial, US$ 20,3 bilhões em 2010, outro tanto este ano. Sem elas, haveria um baita negativo, já que o balanço da indústria manufatureira é deficitário há tempos.
“O importante é estarmos alertas para a sutileza dos efeitos do excessivo gasto público em cenário de alta mobilidade de capitais, sistema de metas de inflação e câmbio flexível”, ele adverte.
Dívidas sem propósito
O diabo é que, com ou sem a guerra cambial acusada pelo ministro Guido Mantega, não há chance de os EUA voltarem a ter dólar forte para lá de uma década, ao menos. Os demais países vão ter de achar outra turma, como a China, a mais prejudicada, ou se abrir a novas ideias. Aqui, cabe discutir a validade de uma empresa se endividar em dólar para bancar investimentos que serão pagos em reais, se ao país, em termos macroeconômicos, basta o equivalente ao deficit em contas correntes — US$ 47,5 bilhões em 2010, ou 2,3% do PIB.
A empresa está certa: pagará 7% a 10% ao ano de juros, menos que nos bancos, afora o BNDES. O custo é do país. Não se percebe por estar diluído indiretamente nas reservas e no funcionamento da economia.
Como e quando começou O país começou a se endividar pesado em dólares durante o período do crescimento acelerado nos anos de 1970. Exceto o que foi tomado para financiar a importação de bens de capital, tudo o mais entrou para bancar os deficits das importações de petróleo e de trigo. Como o grosso dos empréstimos era petrodólar reciclado por bancos dos EUA, que não financiavam deficits, os governos de plantão criaram projetos nas estatais, justificando assim a tomada dos recursos.
Uma vez aqui, o dinheiro entrava no caixa do BC e saía para pagar importações. A prática mudou de empréstimo para emissão de papéis, envolve não só as estatais, mas segue a mesma lógica: zerar contas externas. Vem daí a mágica do crescimento sem poupança interna. |
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